domingo, 23 de outubro de 2022

Eu estou bem aqui

 "Eu quero voltar a escrever", sinto.


Todo dia a intensidade me pinica. Eu quero falar do Tempo, com T maiúsculo de entidade divina.


Eu fazer jus ao meu tempo e deixar fluir - em palavras - que já foi faz tempo. Talvez até algumas prosas de como foi, ou como está sendo. É gostoso contar daqui de vez em quando

Escrever porque aqui, neste "papel", jaz o berço de todas as intuições. Se o percorrer da vida fosse comparado à navegar, e no meu caso muitas, muitas vezes no escuro, cada texto é uma carta náutica. Um pouquinho de luz. 

E aí que o tempo se mistura e o T vira maiúsculo. Eu me leio e me vejo em todas as épocas ao mesmo tempo.

Quero falar de todas as verdades absolutas que caíram por terra. Essa coisa de me proteger na certeza...quanto medo. Longe de mim ser uma versão finalizada. Quanto mais eu volto a esse texto, mais cru ele fica.

Mas eu realmente achei que morreria se parasse de ser relutante. Eu, com tantas palavras, com tanta emoção, nem sabia que havia espaço para agradáveis surpresas. Descobrir que minhas certezas eram muito mais inflexíveis e ser incrivelmente maleável dentro da rigidez exagerada é mais uma adversidade ou exercício de amadurecimento, é veneno. 

Pior que não é nem um veneno daquele tipo sedutor, mas é um tanto difícil de desintoxicar.

Quero falar do que eu penso quando estou perto da água, nem que seja lavando a louça. Sempre tem alguma coisa digna de ser memorável.


Nesse papel todos os tempos se convergem. Eu sobrevoo minhas versões contraditórias do passado enquanto me saboreio do desconforto de tentar organizar novas confusões em palavras.

"Eu quero escrever, de novo."
- "Me deixa tentar mais uma vez."

Narrar em palavras. Exercitar um músculo mais vulnerável, tênue até demais: entre a emoção bruta e o raciocínio tenro, embrionário. Infinitas camadas

Acima de tudo, mais uma vez, num dia qualquer como hoje, eu vou poder me fitar e dizer:
Eu estou bem aqui. Sempre com um encontro marcado, a cada linha sorrindo para mim mesmo: - "E aí! Quanto tempo!"

domingo, 10 de janeiro de 2016

Vida preciosa

*Aviso: falta de acento agudo no teclado

Eh preciso acordar apanhando, dar bom dia doente de noites

mal dormidas, se apertar, se incomodar ao trajeto da labuta

diaria, ser negligenciado em quase todos os serviços que

não os de cobranças e impostos, alimentar-se de mentiras

aterrorizantes e falsamente tranquilizadoras, comer mal,

para tentarem nos fazer esquecer da preciosidade da vida.

Reconhecer a preciosidade instantânea, diaria, natural que

a Vida traz eh, em si, muito perigoso para alguns.
Porque, veja bem, quem se sente parte do chão que pisa,

quem sente que o tempo eh agora e o agora eh raro, não

precisa de um emprego full-time. Se a pessoa eh capaz de

reconhecer, mesmo num misero instante, o brilho das manhãs

e do olhar da criança em cada um, não precisamos nos

deleitar em ouros, outros que não os da alma. Se alguem

sente por um instante, por exemplo, que eh amado, essa

pessoa não precisa mais se dedicar a uma vida de

autoafirmação da sua mediocridade dentro de um sistema

propositalmente omisso, apatico, indiferente e muito, mas

muito chato (e violento). Porque ser tudo isso eh a anti-

estrategia de vida planejada para todos nos.

Eh preciso fazer o exercicio de reconhecer a preciosidade

da vida em seus instantes, não porque ela passa e,

passando, reconhecemos algo que não nos pertence mais.

Muito alem, reconheçamos sua beleza inerente pelo simples

fato de que nos cegamos ao obvio viver liberto, sem medo.
Sem-
medo.
sem precisar de titulos para confirmar conhecimentos que

não transformam, sem precisar de um salario com as custas

da alma.

Eh preciso reencontrar-se no suspiro da saudade, no afago

do abraço, pedaços de memoria que conseguiram penetrar um

nucleo tão intenso de sentimentos esquecidos e duradouros

que, quando resgatados, perpassam qualquer tortura diaria-

constante.
Uma pessoa reconhecidamente viva, sendo ela privilegiada,

com certeza tem acesso a uma gama maior de informações

(pois, mesmo sem perceber, pode pagar por elas: internet,

livros, viagens). Esta, portanto, provavelmente abrira mão

de alguns privilegios em prol da sua evolução. Seja o

privilegio de conceituar outros estando num patamar, o

privlegio de comer comidas recheadas de violência, enfim.

Pessoas sem privilegios, estas sofrem o quintuplo. E a

espiral descende ate os niveis mais primitivos e marginais,

proto-societais de tratamento com alguns seres-humanos.

Estes, ao reconhecer a preciosidade da vida, lhes eh

permitido, antes de mais nada, resistir. Resistir com fe,

sabendo que existem escolhas antes daquelas de se sucumbir

para as latrinas podres da sociedade, pois quando a fazem

acabam por justificar as frustrações e o medo que o sistema

usa dessa suposta "falta de escolha" (muito dificil não

senti-la) para amedrontar os outros, chamando-os de

cachorros loucos. Estes, alem de resistir, percebem que têm

escolhas para muito alem de se render na violência que lhes

eh cuspida diariamente, inclusive nos seus sonhos mais

intimos. Cospem no seu leite materno desde seu nascimento.

A arma mais eficaz contra quem soh vê a verdade nos olhos

dos mortos que matou, eh saber como a vida eh preciosa. Eh

vida vivida versus morte matada (lenta e vagarosamente na

frustração ou de sopetão devido a contestação alarmante

deste mundo doido).

Reconheça, sem alarde. Viva sem alarde, com muita

intensidade, muita presentificação. Pode acontecer num dia

inesperado. Geralmente eh assim. Você acorda sem saber e,

ao final do dia, algum processo interno transformou uma

seleção de sentimentos numa verdade indizivel porem

pulsante. Você se sente vivo, ali, pela primeira vez nos

seus tantos anos de vida.
Então, se você eh uma dessas pessoas que transforma o

exterior em processos internos nutritivos, basta que

espalhe a mensagem.

Se você não se vê transformando/filtrando acontecimentos

externos, ouça os mensageiros, preste atenção nos sinais. A

mudança sempre ocorrera de dentro para fora. Resolva-se

consigo para resolver o (seu) mundo.

Porque, a questão eh exatamente essa. O mundo não vai mudar

com você. A gira do mundo girara da mesma forma antes e

depois do seu peso na Terra. O mundo nos afeta e eh afetado

de forma constante, no entanto quando afetado, apenas

encontra formas novas de atingir o mesmo objetivo: se

impor. O mundo se impõe, dos raios de Sol invadindo cada

fresta de janela aos padrões de beleza da sociedade, basta

você saber distinguir e filtrar o que te alimenta de fato.

O mundo se impondo e você metamorfizando, num tempo habil

curtissimo. Sendo assim, saiba: O mundo permanecera, você

não. Não podemos mudar, institucionalmente, coletivamente,

conceitualmente, o que o mundo eh e representa na

existência. Mas podemos mudar os individuos que o habitam.

Estes, de dentro para fora, ouvindo o recado primordial e

eterno: a vida eh preciosa.

Sem aceitar meias alegrias, uma vida de cobranças nefastas

com prazos para trabalhos etereos, virtuais. Conhecimentos

fajutos, inaplicaveis, infinitamente dedutiveis. Morrer de

saudades diversas, com fome de horizontes, consolando-se em

alguns entes queridos (quando existem).

Cace o sentimento da preciosidade no dia-a-dia ate estar

resoluto em não viver outras verdades que não cheguem na

altura desta vibração. Sinta a necessidade desta caça a

cada desentendimento, tapa na cara, violência presenciada e

sentida no coração.

Não ha cômodo que a injustiça não alcance, você tera tempo

para exercitar isso, ô se vai.
Seja uma pessoa resoluta em buscar a preciosidade como arma

de resistência da dignidade de viver e evolução

existencial. O desafio eh saber ser indignado e feliz. Isso

da outra reflexão (outras mil).